O casamento continua, o filho espera.

25/09/2008 03h00

por Jorge Forbes

Artigo publicado no jornal O ESTADO DE S.PAULO, no dia 25 de setembro de 2008 - Primeiro caderno - A26 - Retratos do Brasil: Sociedade

Os Indicadores Sociais 2007, do IBGE, agora anunciados, mostram que há no País quase 2 milhões de casais com duplo rendimento e nenhum filho. É um fenômeno dos países desenvolvidos: casais nos quais os dois cônjuges têm fontes de renda independentes, mas não têm filhos. O número é de 1,942 milhão. Esses casais têm rendimento per capita de até 3,5 mínimos (por isso, estão nos 10% mais ricos do Brasil) e, em quase 60% dos casos, têm até 34 anos. Em dez anos o número praticamente dobrou, pois era de 997 mil, ou seja, ocorreu um crescimento de 94,78%!
Surpresa? Não, esperado. Esses dados indicam uma mudança no comportamento já detectado por outros indicadores de menor convicção, para alguns, que os números ora estampados. Eles refletem ao menos três fatores: a melhoria da renda da população, também largamente comentada nessa semana, por outros índices; a persistência da importância do vínculo da vida a dois, legitimado ou não; e o retardo da idade de ter filho, se comparado com os hábitos de vinte, trinta anos atrás.
Analisemos a vida a dois e o filho supostamente tardio.
Pensava-se - o que se mostrou errado - que a pós-modernidade, a globalização, ou qualquer outro nome de que dispomos para nomearmos a nova era que começamos a viver, traria uma verdadeira esbórnia sexual, derivada do fato da despadronização dos princípios morais. Qual o quê. Os índices de promiscuidade sexual, em vez de aumentarem, baixaram, inclusive no Brasil. Provou-se que não é a disciplina, ou o controle externo, que está na base do comportamento amoroso. Além disso, as pessoas preferem a vida a dois, mesmo quando poderiam ter uma vida múltipla, e isso não se dá hoje por nenhuma coerção de costumes civis ou religiosos. A vida em casal oferece para o homem e a mulher da globalização o confronto necessário e diário com o mesmo; não o mesmo da mesmice, do tudo igual, mas o mesmo de um lugar simultaneamente conhecido e estranho, que é a intimidade. No desbussolamento dessa época, uma nova orientação é dada por essa intimidade singular de cada um, que só uma vida conhecida oferece. Paradoxalmente é aí, no conhecido, que fica evidenciado o ponto de estranheza que nos inquieta e move a vida.
Quanto aos filhos, é bom notar que a maioria desses casais está na faixa de até 34 anos. Seria precipitado pensar que não querem mais ter filhos. Seria se guia pelos critérios de um tempo anterior que nomeava tecnicamente uma moça de mais de 30 anos de “primigesta idosa”. Antes, era esperado que os filhos nascessem, ao menos o primeiro, antes dos trinta anos, especialmente, dela. Hoje é diferente. Como no avião, onde se aconselha, em casos de despressurização, que primeiro os adultos ponham suas máscaras, e só depois ajudem as crianças a colocarem as delas, também os casais de agora, primeiro tomam ar cuidando de suas vidas profissionais e de construírem suas casas, para depois terem um, dois, quando muito, três filhos.
É claro que contam para isso, não só com as mudanças do tempo, como também com os avanços da medicina que pluralizaram as formas de concepção e de se manterem... os pais, jovens.