A Crise Está Na Sua Cabeça

30/11/2008 02h00

Artigo para a revista WISH n? 25 Por Jorge Forbes

O PSICANALISTA JORGE FORBES CONTA O QUE ACONTECE QUANDO OS SENHORES DO UNIVERSO NÃO SÃO CAPAZES DE ESCAPAR DO SEU TRISTE DESTINO

Surpresa anunciada é estranha, mas é surpresa.
Todo mundo sabia que alguma coisa estava muito errada, há bem mais de ano, mas como não se tinha a menor idéia do que se tratava, fingiu-se que o monstro era de brincadeira, que não mordia, só assustava. Os senhores do universo - cuja derrocada já tinha sido anunciada pelo criador do new journalism, Tom Wolfe, no seu Fogueira das Vaidades - não foram capazes de escapar a seu triste destino. Também pudera: sem ideologia; cultura rala; muita dieta balanceada para a maratona de fim de semana; carros, casas e corpos – especialmente a cabeça – blindados, não daria mesmo para evitar a rota de colisão com o desastre previsto. Acrescente-se o fato de que, curiosamente, alguns dos mais conhecidos analistas econômicos foram lastimáveis ministros, ou presidentes de bancos federais. Pena para o país que, para hoje serem bem vistos consultores, tenham que ter sido ministros. Como entender?

Comecemos por reconhecer o óbvio: estamos perdidos. É pouco continuar a fazer cálculos econômicos supostamente objetivos, que não levam em conta a enorme mudança social que representa a globalização, para diagnosticar a crise de confiança que atravessamos. Sim, disse crise de confiança e não econômica, para privilegiar o aspecto da fé que falhou, apesar do nosso recente Ministro da Cultura, Gilberto Gil, ter insistido no canto de que “a fé não costuma faiá”. Mas quando falha, como agora, sai de baixo.

Economistas usam sem parcimônia todo um vocabulário advindo da psicanálise, tal como: a ‘depressão das bolsas’, a ‘histeria dos investidores’ e a ‘psicose do dólar’. Está na hora de um cursinho de reciclagem, pois essas categorias não são mais consideradas suficientes para uma análise da atualidade, no campo que as cunhou. Vamos lá. Do ponto de vista psicanalítico o principal fator que define a globalização é a mudança do eixo das identidades de vertical para horizontal. Explico: quando dizemos eixo vertical das identidades fazemos referência a um laço social padronizado: todos unidos em torno a um ideal. Na família, o pai; no trabalho, o chefe; na sociedade civil, a pátria. Assim funcionava o laço social até uns trinta anos atrás, constituindo uma sociedade hierárquica e piramidal. Tínhamos um mundo uni-versal, que tendia ao um, a uma versão do mundo superiora às outras. Muito diferente é a globalização: caem os padrões verticais, estabelece-se uma sociedade de rede, na qual todos estão conectados e interdependem. Não há mais um piloto automático de como proceder, a rota tem que ser reavaliada por um cálculo coletivo a todo instante. Daí a importância renovada da cultura: uma sociedade horizontal, um mundo plano, como chamou Thomas Friedman, no título de seu Best seller, é constituído pela cultura, é estruturado por ela; a cultura deixa de ser entretenimento secundário, para se constituir no próprio alicerce das relações sociais, antes da economia.

Essa atual crise mundial coincide com o final da era Bush. Bush e a crise se complementam e se merecem. O homem que separou o bem e o mal, que promulgou o ato patriótico - atentado às liberdades individuais- que respondeu, ao ser atacado, na base do infantil quem pode mais, esse personagem que não deixará saudade, ajudou a obscurecer a visão do mundo ocidental e atrasou o surgimento de novos conceitos necessários à era em que vivemos. Sob o guarda-chuva Bush os senhores do universo fizeram seu déjeuner sur l´herbe, levando-nos à indigestão. O pior é que temos que limpar as migalhas desse banquete perverso (mais uma categoria analítica), para não criar ratos.

Uma nova voz se levanta: Yes we can. Ele foi ninado em africano, alfabetizado em inglês, vivido na Indonésia; é, em si mesmo, um ser globalizado. Seu jargão, que pode ser visto como voluntarioso por alguns, deve ser interpretado como um convite à responsabilidade coletiva expressa no “nós”, sim, nós podemos mudar o mundo se nós quisermos: basta de senhores do universo esvaziados de pensamento e de desejo, bem vindos parceiros de uma nova cultura de responsabilidade compartida, na qual a economia importa, mas não é essência. Foi o voto da mudança. A ver.
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Jorge Forbes é psicanalista e médico psiquiatra, preside o IPLA – Instituto da Psicanálise Lacaniana- e dirige a Clínica de Psicanálise do Centro de Estudos do Genoma Humano da USP.