Felicidade Não É Bem Que Se Mereça - versão reduzida

01/10/2008 03h00

Jorge Forbes

Artigo publicado na revista WELCOME Congonhas, setembro de 2008 - ano 2 - número 18


Ninguém merece ser feliz, ponto. Aí está uma frase provocativa. Acaba com as perspectivas daqueles vendedores de métodos de como alcançar a maior felicidade, que perturbam a vida de todo mundo, tanto mais porque, para serem convincentes, ficam buscando lhe demonstrar como você está mal, semelhante a frentista de posto de gasolina, para quem seu carro está sempre faltando óleo. Mas não conclua rapidamente pensando que então a felicidade não existe. A frase não nega a felicidade, mas, sim, o seu merecimento, ou seja, a idéia de que felicidade seja algo que se encontra ao final de um esforço premeditado.
O filósofo e jurista italiano Giorgio Agamben, em um pequeno livro chamado Profanações, se delicia com o tema afirmando: “O que podemos alcançar por nossos méritos e esforços não pode nos tornar realmente felizes. Só a magia pode fazê-lo”. É de levar Kant a se revirar em seu descanso, pois para esse pai do Iluminismo, citado pelo mesmo Agamben, a felicidade é algo destinada aos dignos de merecimento, assim: “O que em ti tende ardorosamente para a felicidade é a inclinação; o que depois submete tal inclinação à condição de que deves primeiro ser digno da felicidade é a tua razão”.
De que lado ficaria a Psicanálise, em especial Freud e Lacan? Não duvidaria em responder que do lado de Agamben, mesmo contrariando os moralistas e parecendo coisa de Harry Potter essa ligação de felicidade com magia.
Por que magia? Continuando nas Profanações, lemos: “Mas de uma felicidade de que podemos ser dignos, nós (ou a criança em nós) não sabemos o que fazer. É uma desgraça sermos amados por uma mulher porque o merecemos! E como é chata a felicidade que é prêmio ou recompensa por um trabalho bem feito!”.
Como entender tamanho ataque ao bom senso, que questiona os princípios elementares da educação infantil? A resposta está no fato de que: “Quem é feliz não pode saber que o é; o sujeito da felicidade não é um sujeito, não tem a forma de uma consciência, mesmo que fosse a melhor”. Dois aspectos são aqui relevantes: primeiro é que felicidade não progride, nem se acumula, pois se assim fosse acabaríamos estourando em sua plenitude. Pensar então que hoje somos mais felizes que nossos antepassados é tão falso quanto o contrário, que ontem é que era bom, como insistem os saudosistas. Segundo, a felicidade se dá no acaso, no encontro, na surpresa, daí dizer que ela foge à consciência, que ela é uma magia. O curioso é que para ser feliz, para um momento feliz, pois são sempre momentos e não essências, há que se suportar a sensação de quebra de identidade que fatalmente ocorre. Razão que explica que para alcançar a felicidade é necessária uma boa dose de ousadia e coragem, e não se medir pela expectativa do que esperam de você. Felicidade é suportar o inesperado; tente.

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30 de agosto de 2008