Filhos inesperados

12/01/2009 02h00

Artigo de Jorge Forbes publicado na revista WELCOME Congonhas, fevereiro de 2009 - ano 2 - número 22

Pais tendem a recusar filhos que lhes pareçam estranhos

Filhos são habitualmente esperados, desde muito antes do dia do parto. Essa esperança é notável em todos os detalhes prévios ao nascimento: a escolha do nome, a decoração do quarto, a cor do enxoval, o time pelo qual torcerá, a matrícula no colégio e até mesmo com quem vai se casar.

Quase tudo já está escrito no desejo dos pais, e melhor que assim seja, pois é exatamente esse desejo que veste o ser humano em sua precária condição biológica de sobrevivência: um bebê deixado à sua própria sorte morre em algumas horas. O projeto dos pais é em alguma medida frustrado e correções de rumo, de parte a parte, escrevem a história de uma relação e fazem com que cada um possa ter uma história.

Agora, pensemos o que acontece quando algo inesperado se dá, algo que de tão forte rompe a possibilidade da correção de rumo. Pode ser uma morte, uma importante crise na família, uma doença grave do filho, daquelas que não são de época, como as doenças ditas da infância: caxumba, rubéola, catapora, mas que se instalam e que exigem uma nova bússola; aí temos a figura do filho inesperado, que escapa ao projeto, com o risco de ficar sem história. E, sabemos, não existe ser humano que sobreviva fora de uma história.

O filho inesperado desacomoda profundamente a louvada harmonia familiar. Pais tendem a recusar esse filho que lhes parece estranho e como moralmente se vêem impedidos de expressar seu desalento, disfarçam-no, aos outros e a si mesmos, em uma conduta esforçada, dizendo assim: “O senhor não sabe o quanto minha vida mudou depois que ele nasceu. Não faço outra coisa a não ser levá-lo de médico em médico; carregá-lo daqui para lá, etc, etc”.

Declaração dúbia, pois se por um lado assevera o bem querer, representado pelo cuidado extremado, por outro, não dissimula a queixa de ter a vida mudada. Pelo lado do filho, a situação não é muito melhor: uma vez que nos vemos pelo olhar do outro, este acaba se recusando a si próprio, se achando um peso, chegando a ficar um desistente da vida.

De nada adianta tratar essa situação pelos bons conselhos de tolerância, compaixão e resignação. A maior parte das vezes essas medidas só evitam o problema, e a insatisfação, que não se expressa diretamente, coagida pela disciplina do politicamente correto, acaba se manifestando em outro lugar, no corpo ou no cotidiano das pessoas. A proposta da psicanálise vai ao avesso do disfarce: melhor é saber que somos todos filhos inesperados, que somos todos filhos adotivos, que a filiação humana não se sustenta na simples prova de continuidade biológica. Basta ver que uma das fantasias universais do homem é a de ter sido encontrado na lata de lixo.

Um filho inesperado serve como uma interpretação para seus pais: aquilo que não tem lugar no que era esperado pode ter lugar, pode existir no amor que suporta o reconhecimento das diferenças. Essencialmente, somos todos muito diferentes.

JORGE FORBES, fev, 2009.