Freud não explica, implica

14/11/2012 02h21

Jorge Forbes

Eu tinha 23 anos de idade, era médico recém-formado, aprendia psiquiatria no Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, com o Prof. Carol Sonenreich. Tinha meus seminários de psicanálise em uma instituição formadora de analistas, em não sei mais que dia da semana, à noite.

Imaginemos que fosse às terças-feiras. Nas quartas-feiras pela manhã, o interessado Professor invariavelmente me perguntava: - “E então, Doutor, como foi ontem à noite seu seminário de psicanálise?”. Eu me estrebuchava, preocupado para explicar que alguma coisa dali se salvara. O Dr. Carol não era um adepto da psicanálise freudiana mas respeitava as escolhas diferentes, desde que bem sustentadas. Esse era o meu problema: concordar e sustentar o que aprendia. Minha dificuldade não passava despercebida ao Professor que, delicadamente, não insistia na conversa. Passaram-se várias manhãs de quartas-feiras, onde a evidência de meu desconforto aumentava, até que um dia veio o comentário consequente de meu interlocutor: - “Interessante, Doutor, os ataques semanais à sua forma de inteligência, que o senhor faz, para se tornar psicanalista”. Foi fulminante. No dia seguinte já me encontrava no meio da rua, livre do sofrimento semanal, mas também afastado daquela formação psicanalítica.

O que fazer? Alguém me sugeriu: - “Você já ouviu falar que na França há um grande psicanalista, Jacques Lacan, que fez uma série de críticas ao standard, em especial à utilização da contra-transferência e do manejo do tempo? Por que não se informa?”. Lá fui eu, de início, atrás dos Escritos, em seguida, atrás da pessoa. Abro os Escritos e caio sobre a “Direção do tratamento e os princípios do seu poder”. O pouco que pude compreender nesse primeiro encontro, muito pouco, foi suficiente para me reanimar em relação à psicanálise. Havia uma crítica consistente; dava então para ser psicanalista sem obrigatoriamente consagrar o seu sentir, no famoso: “Eu sinto que o que você está dizendo é que tal coisa...” Ah, que falácia fazer do meu sentimento a verdade escondida do outro. Cheguei assim ao que hoje chamamos o primeiro Lacan. O Lacan que no lugar do sentir pôs o escutar. O analista deveria escutar o que diz o analisando em associação livre, ou seja, as palavras sabem se organizar – tal como as estrelas de Bilac. E Lacan dedica quase toda a década de 50 e bastante a de 60, a provar a ciência deste significante, que importa de Saussure, demonstrando que o sentido se dá no axioma desta cadeia, no fantasma, e não no sentir do analista, por mais bem analisado que ele seja.

A clínica de Lacan não parou aí. Alguma coisa se mostrava resistente ao projeto de uma clínica estrutural: o encontro com o Real – ou seja, uma pessoa se depara com uma dificuldade – dá-se a imaginarização desse encontro – a pessoa sonha, se aconselha, comenta, intui, enfim, imagina das mais diversas formas o que lhe sucedeu, e, finalmente, terceiro momento, necessita uma interpretação segura, uma interpretação simbólica validada na lógica do significante.

Em síntese: do Real ao Imaginário e, deste, ao Simbólico.

Mas, a clínica exigiu mudanças, como dizia. Se havia um Real com sentido, com lei – a lei do significante – que a interpretação revelava – começou-se a perceber um outro  Real, resistente a qualquer interpretação que, por decorrência, é chamado de Real sem sentido, ou de Real fora do sentido.

Como captar esse Real fora do sentido, aquele que não se revela na outra cena proposta por Freud? Esse Real fora do sentido é mais presente nos tempos atuais da globalização que antes, na época da industrialização. A era anterior por privilegiar as significações verticais, fálicas, poderíamos arriscar, deixava pouca importância a essa satisfação desbussolada do Real fora do sentido. Não é o que ocorre hoje. Foi preciso para Lacan um avanço, uma segunda clínica que não fosse estrutural mas borromeana, onde o gozo – entenda-se aqueles sentimentos desacomodados das satisfações prazerosas prêt-à-porter da civilização – desde o primeiro momento, desde o primeiro contato com o analisante, pudesse ser tratado. E se na primeira clínica o que se faz é interpretar, revelar, descobrir, deduzir o sentido, o que se fará na segunda? Implicamos o sentido, sim, podemos dizer que na primeira “deduzimos o sentido” e na segunda “implicamos um sentido”, o sentido de uma satisfação. Exemplo: Nelson é casado, protestante, homem de regras rígidas em casa e no trabalho, casou-se com sua quarta namorada e teve três filhos. De repente, sem saber por que – se diz surpreso – ele começa um caso com uma colega de serviço. Depois de três encontros amorosos na capital, o casal resolve fazer uma lua de mel de um dia na Praia Grande, no apartamento dos pais da amante. Antes de se encontrar com a parceira, Nelson toma 12 comprimidos de Triptanol, bem pensadamente: queria morrer – de culpa, diz ele – nos braços da sorrateira amada. Os detalhes de sua satisfação lhe passam longe: ser encontrado morto nos braços da amante, no meio do coito escondido, no apartamento dos pais da moça, e a moça, e os pais, e sua mulher, e seus filhos. Ah, só se for inconsciente explica o flexível protestante.

O que fazer? Pedir associação? O que você associa com Praia Grande, Lorde Nelson? Seu Trafalgar particular? Seu Aboukir? – perguntaria Castro Alves. Não, que o crítico de plantão não venha acusar Lacan, ou os lacanianos, de moralistas ou de condutores de paciente. Por demais banal. O analista pode, de imediato, na primeira entrevista – aliás é o que estou relatando, uma entrevista de um paciente, em uma apresentação na manhã de hoje no Hospital das Clínicas – implicar o sentido do gozo, a conseqüência e a responsabilidade do sujeito em sua ação. Razão inconsciente? Ok, sem dúvida, há sempre razões inconscientes, mas a psicanálise não é uma máquina de desculpar gozos à deriva, ao contrário: a pergunta da segunda clínica de Lacan é qual a possibilidade de ganharmos um pouco de terreno sobre o desvario do gozo deste sujeito do Século XXI?

Se na primeira clínica deduzimos o sentido através da lógica do significante: já relatei a moça que descobriu a razão de usar sandálias em ocasiões inusitadas; era porque tinha uma identificação com uma tia carmelita - descalça. Qual sentir de um analista poderia inventar que uso de sandália é igual a tia carmelita; e que aquele outro paciente que descobre que o catorze, do avião catorze - bis do seu sonho, queria lhe dizer uma injúria: “que atorzinho mixo, você é”. Não, não é o sentir mas a escuta que opera. Na segunda clínica, diferentemente, o gesto do analista, seu ato, não busca um outro sentido em uma outra cena, mas, ao contrário, implica um sentido na indiferença do relato.

E como não ser moralista? É a pergunta que corresponde na segunda clínica àquela do sentir da primeira. Como se guiar? Pela angústia e pela letra. Angústia é o único sentimento que não engana, diz Lacan, e não se assenta no significante mas na letra. Letra é um “significante especial”, uma marca desprovida do sentido e, por conseguinte, fora da cadeia. Nos guiamos no Real fora do sentido pela letra, pelo ponto que se repete insistentemente fora de qualquer significação, pela pedra do meio do caminho, pelo “mais forte que eu” do qual ninguém escapa – talvez os perversos – com que todos se deparam. E o que fazer com essa letra que faz sintoma indecifrável, sem sentido? A esperança de Lacan é que seja possível articulá-lo em uma nova aliança além do pai, além do Édipo, além do sentido: chamou isso de um novo amor, amor que, por não ter a garantia do sentido da cadeia significante, da razão, da verdade, não tem outro lugar que não seja na responsabilidade de cada um frente ao singular de sua satisfação. “Quando o analisando pensa que está feliz por viver, é o bastante”. Afirmação de Lacan em 1975, na Universidade de Yale, por muitos anos considerada contraditória, no mínimo enigmática. Aí estamos hoje na clínica com Lacan: na responsabilidade e inconsciente, no novo amor.

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Comecei esta fala homenageando, com Lacan, aquele que “inconscientemente” me levou a ele Lacan, meu Professor e hoje companheiro nesta Mesa – talvez um lacaniano “malgré lui”, Carol Sonenreich.

Reservo para a conclusão uma palavra ao meu amigo Márcio Giovanetti, Presidente da Sociedade Brasileira de Psiquiatria – São Paulo, com quem me unia à distância e agora cada vez mais perto: o um da psicanálise não é o um do Pai Freud, mas o inefável (sem fala), que estamos redescobrindo. É por isso que acredito, com Miller, estarmos às portas da reunificação do campo psicanalítico. Reunificação fragmentada e incompleta. O tempo dessa reunificação é como a variação clínica do tempo em Lacan, depende de nós.

 

São Paulo, 6 de dezembro de 2001

 

Nota: Trabalho apresentado na Mesa Redonda: “Lacan e a Clínica”, na Semana Lacan na Cidade, promovida pela Escola Brasileira de Psicanálise – SP, na série Colóquios Jacques Lacan 2001. Participaram também da Mesa: Carol Sonenreich e Márcio Giovanetti, como relatores, e Ana Maria Pita, como presidente.

 

 

Artigo publicado na revista OPÇÃO LACANIANA , Nº 33, junho 2002