GIRASSÓIS - clinicando as psicoses

03/09/2015 15h18

Jorge Forbes

 

       No mundo onde as imagens imperam, tema desse congresso, o tratamento das psicoses muda. Gostaria de comentar com vocês três pontos: I. O que representa essa mudança de época e de clínica?; II. Qual o fator fundamental a se atingir na clínica hoje; III. Exemplos pontuais de intervenções clínicas nessa nova ordenação. 

I 

       Na era anterior, até vinte, trinta anos atrás, vivíamos no Império dos Símbolos, não das Imagens. Quando o simbólico reinava, o tratamento das psicoses, consagrado por Lacan em sua releitura de Freud, visava à estabilização do delírio através de um simulacro da metáfora paterna presente nos neuróticos, a saber, a metáfora delirante. O analista deveria se oferecer como “secretário do alienado”. O modelo dessa clínica era a forma que Schreber achou para se auto estabilizar.

        Para o que nos interessa discutir aqui, relevamos uma diferença fundamental na comparação entre essas duas épocas: saímos do Iluminismo, onde o saber era garantidor da ação, onde a compreensão era fundamento do laço social, para o tempo no qual se evidencia que “todos deliram”, tempo esse não do diálogo, mas dos monólogos articulados.

        O jovem de hoje, quando pergunta se você “está ligado?”, não está sendo tonto e nem superficial, como podem pensar os seus pais. Não se trata no “tá ligado?” de uma banal linguagem fática, de testagem do canal comunicativo. O que ele pergunta é se o que faz sentido para ele, de uma forma única, faz sentido para você. Sentido e não significado. Algo que toca um, também toca o outro, mas de maneira diferente. E essa diferença é sustentável. As pessoas não precisam compartir o mesmo significado para estarem juntas. Constatamos a existência de uma nova ligação, um novo amor (tema para outros trabalhos). Para ficar em um só exemplo, pensem nos dois milhões de pessoas que estão juntas, sem se compreenderem, em uma Techno Parade. A música eletrônica tem ritmo, mas não tem letra, possibilitando a multiplicidade de presenças. Raciocínio análogo serve para entender os virais.

        Nesse quadro, no qual a imagem sem significado a priori impera, a clínica, como também indicou Lacan em Joyce, tem que ser repensada em um novo patamar, além do Édipo, além, no caso das psicoses, da estabilização da metáfora delirante. 

II     

       Em um laço social horizontal, quando não se tem mais a garantia dos padrões para se saber o que está dizendo, torna-se necessário dois movimentos: inventar e se responsabilizar. É algo semelhante ao gesto do artista. Onde não tinha nada, Van Gogh viu girassóis que agora nós também vemos. Ele inventou seus girassóis e se responsabilizou por incluí-los nesse mundo. A cada um de nós também cabe inventar sobre o silêncio e se responsabilizar por sua criação, embora dificilmente com o mesmo talento, infelizmente. A psicanálise deve nos propiciar o duplo gesto de inventar e se responsabilizar. O talento é outro assunto.

      Como responsabilizar o psicótico, quando nos acostumamos a pensar – na clínica e no mundo jurídico – que o psicótico é irresponsável? Sem nos alongarmos aqui – já o fizemos em uma tese – trata-se de uma responsabilidade de outra lavra: ética, mas não moral, responsabilidade que não é decorrente do conhecimento da lei celebrada na frase “A ninguém é dado alegar o desconhecimento da lei”. A responsabilidade a que nos referimos é frente ao acaso e à surpresa, contrariando completamente o bom senso. É a responsabilidade apontada por Lacan, quando diz que da “nossa posição de sujeitos somos sempre responsáveis”, independente da estrutura clínica, há que se acrescentar.

      Assim sendo, além de “secretariar o alienado” podemos, clinicamente, implicar o psicótico em sua responsabilidade. Trata-se mais de implicar, do que de explicar.

 

III

       Talvez fique mais sensível o exposto até aqui, se, para concluir, exemplificar com exemplos clínicos. Selecionei, com essa intenção, quatro curtíssimas intervenções, em quatro casos diferentes. Todos foram atendidos em clínicas públicas (Psiquiatria e Genoma), no âmbito da Universidade de São Paulo, na prática de apresentação de pacientes.

       Paulo perdeu sua mãe há cinco meses. Desde então ele passa todos os seus dias, de manhã à noite, no túmulo dela. Não se lava, mal come, não fala com ninguém. Na consulta, o analista, em vez de corrigi-lo, pergunta em detalhes essas visitas cotidianas. Se ele leva comida, se ele se senta em cima do túmulo ou do lado. Como se veste, se conversa ou não com a mãe, se o cemitério não é muito quente etc. Foram só duas entrevistas iniciais nessa vertente. Na terceira ele chega contando que sua mãe lhe apareceu em sonho, dizendo que ele parasse de ir ao cemitério. Como não obedecer?

      José se mutila. Nesse dia, antes de vir à primeira apresentação, faz vários cortes em seu escroto. O analista é avisado do ocorrido, logo antes da reunião clínica. De forma homóloga, as perguntas são feitas, sem caráter de reprimenda, mas de interesse por satisfação tão peculiar. O efeito é impressionante, antes do final da entrevista já havia indícios que abandonaria a mutilação, o que se confirmou.

      Márcia se corta. Seus braços, suas coxas, sua barriga têm que ser mantidos cobertos para não chocar. Diz que cada corte foi produzido após um acontecimento afetivo. É lhe lembrada da letra da canção Sem Fantasia (que nome bem a calhar!), de Chico Buarque: “Eu quero te mostrar/ As marcas que ganhei/Nas lutas contra o rei/Nas discussões com Deus”. Ela, logo em seguida, passa a preferir o canto, a se machucar.

      André era enfermeiro e, em delírio, medicou erradamente um paciente. Construiu, tal qual um Schreber, uma teoria complicadíssima, a qual batizou de Nefessíntese, uma mistura de filosofia e psicanálise – inspirada supostamente em Freud, Jung, Nietsche, Descartes e Sócrates. Diz que é a teoria do amor. O analista não se comove e realça a consequência dessa bela teoria: André literalmente mora em baixo da ponte. Não é que ele não concorde com a teoria, nem a discute, ao contrário da tradição, simplesmente questiona a consequência. O efeito também foi imediato.

      Nessas quatro intervenções, vemos um mesmo elemento insistir: a separação já referida entre moral e ética. Ela parece fundamental para se conseguir o respeito à invenção singular de cada pessoa e a subsequente responsabilidade por seus girassóis.


Apresentado na 1ª plenária do VII ENAPOL (Encontro Americano de Psicanálise de Orientação Lacaniana) – O Império das Imagens.  São Paulo, 4 de setembro de 2015.