Alocução do Diretor Geral da EBP, no Ato de Fundação

17/07/2009 13h18

Em 1995, foi formalmente fundada a Escola Brasileira de Psicanálise (EBP) na união de suas Seções, que existiam desde 1994. O discurso de Forbes, primeiro Diretor Geral da instituição, foi proferido com emoção durante o V Encontro Brasileiro do Campo Freudiano, “A Imagem Rainha, as formas do imaginário nas estruturas clínicas e na prática psicanalítica”, no Rio de Janeiro.

A fundação foi prestigiada pela presença de representantes das quatro Escolas do Campo Freudiano então existentes: École de la Cause Freudienne, Escuela del Campo Freudiano de Caracas, École Européenne de Psychanalyse e Escuela de Orientación Lacaniana.

Caros colegas, amigos,

Estamos a dois passos, mais precisamente a duas falas, do momento decisivo, do ato pontual, seco, cortante, da fundação da Escola Brasileira de Psicanálise.
Mesmo que todos nós saibamos o que vai acontecer, mesmo que todos os anúncios tenham sido feitos e cumpridos, mesmo assim, não se perde a surpresa do ato. Toda a parafernália eletrônica que hoje em dia é capaz de esmiuçar os labirintos do nascimento de uma criança, não foi capaz, e não será, para nossa sorte, de retirar o brilho repentino, a ansiedade expectante, o riso surpresivo.

O mesmo se verifica a cada passagem de ano. Quem consegue ficar indiferente à contagem regressiva dos segundos que antecedem a meia-noite, a hora zero de um ano novo?

Caros amigos, para os que estão aqui e também para outros, vivemos o momento de marcar uma diferença cuja conseqüência será de nossa responsabilidade. Essa Escola existirá porque nós a quisemos; porque muitos disseram: “eu quero”; e a concebemos de tal forma a permitir que um grande número de pessoas, respeitando suas singularidades - o tão propalado um a um - tenham dito: eu quero. Só um forte desejo compartido pode explicar este fenômeno coletivo, quando a coletividade não é homogênea.

Quatorze anos se passaram e este momento de passagem é ordenador de nossa memória. A saudade começa a ser nomeada. Você se lembra das aulas de Alain Grosrichard faladas em português com sotaque, ensinando o gosto do saber? Você se lembra da primeira viagem de Jacques-Alain Miller quando se comparava ao São Paulo de Lacan estabelecendo e transmitindo um ensino?

Você se lembra? Você se lembra...? Você se lembra quando nos conhecíamos a todos pelo prenome, ou melhor, só nos conhecíamos pelo prenome?...
Esta é uma boa hora para que cada qual possa fazer a conta de sua história; contá-la. Sem balanço, sem querer saber se a coluna do bom é maior ou menor que a colunado mal. Não é este o maniqueismo fácil que nos fez chegar até aqui mas, pelo contrário, é por sabermos que o entusiasmo, referência de Lacan, ultrapassa as justificativas.

A quem responde a Escola?

- em primeiro lugar ao analisando. Uma análise conduzida por um analista inscrito em uma Escola deve ter um traço distinguível, em especial, quanto ao seu término. A Escola em si mesma se articula ao final da análise pois recebe a transferência que não se extingue. A Escola se contrapõe ao cinismo dos não tolos. Ainda: o surgimento de uma Escola tem se mostrado uma oportunidade para cada um se perguntar sobre a sua própria análise; a um novo parâmetro, pode eqüivaler a um novo valor.

- em segundo lugar, a Escola responde sobre a formação dos analistas, sobre o que lhes garante quanto ao ser analista e quanto à prática da psicanálise; ela é a referência.

- em terceiro lugar é tarefa da Escola a manutenção da psicanálise no mundo. O recente relatório da Associação Mundial de Psicanálise assinado por Eric Laurent, e aprovado pela Assembléia Geral de 14/7/94, marca uma agenda comum. Dali destaco alguns pontos: os resultados da psiquiatria biológica; a doação de órgãos; a engenharia genética; as cirurgias cosméticas; a eutanásia; são temas que aguardam nossa melhor presença; a resposta da psicanálise sobre o real da angústia que reaparece nos avanços e nos progressos da civilização.

A psicanálise no Brasil é bastante antiga, desde 1927. Esta Escola surge, portanto, em uma estrada já aberta. Ela saberá respeitar e fazer também seu este passado e prosseguir mesmo quando em descontinuidade.

A Escola, que traz Brasileira no nome, é do Campo Freudiano. Sabemos ser este o seu território: o Campo Freudiano; no entanto, uma Escola adquire os contornos do local onde se instala, amolda-se à paisagem. Aguardamos para verificar os detalhes que a distinguirá entre as cinco Escolas da Associação Mundial de Psicanálise. De que maneira a língua, a cor, o clima, a música, a literatura, a arte, a história, a ciência, a religião, o povo, enfim, a cultura brasileira, com suas peculiaridades, problemas, soluções, interferirão em seu desenho?

Uma coisa é certa: o brasileiro ama o inconsciente e torna relativo o consciente, o sabido, o Mestre. Ele conhece o valor do não se tomar muito a sério.

A Direção Geral desta Escola Brasileira de Psicanálise, estarei assumindo em alguns minutos, me impacta. Agradeço a Associação Mundial de Psicanálise e aos meus colegas do Conselho da Escola pela confiança em mim depositada. Estes meses preparatórios de Escola em formação têm reiterado o valor do trabalho associado: com os membros de minha Diretoria, com o Conselho da Escola, com a Assembléia de membros e com a AMP. Agradeço também a todos os atuais e anteriores Diretores das Escolas da AMP, pelo exemplo.

O nosso trabalho já teve início. Caminhamos nestes primeiros tempos para a unificação da Escola: os cartéis declarados à Escola, as Jornadas Brasileiras de Cartéis, a Biblioteca da Escola, os Encontros, a política integrada dos convites, as publicações, as conferências itinerantes - conhecidas como “Sábados da Escola”, são os primeiros frutos - mais a muito ainda a fazer, o passe e a garantia em especial. Estamos só começando e a colaboração de cada um é fundamental.

Eu disse eu quero, nós dissemos eu quero aquilo que desejávamos. Mas o desejo é exigente e incansável; devemos nos preparar para não ceder.

Bem-vinda Escola Brasileira de Psicanálise, tão bem-vinda.

30 de abril de 1995.