De Eric Laurent: “Nossa política para a psicanálise e a da IPA: três exemplos”.

17/07/2009 14h50

O inconsciente freudiano tem agora uma tradução na língua das neurociências. Ao menos, esse é o novo paradigma que, seguindo Eric Kandel, os defensores da psicanálise cognitiva tentam estabelecer por todo o campo.

Kandel quer conduzir a psicanálise de seu « contexto de descoberta », pré-científico, a uma etapa superior, científica, absorvendo-a na nova disciplina das neurociências cognitivas . (1) Esse projeto ganhou forma em dois artigos famosos que precederam seu prêmio Nobel de medicina por trabalhos sobre o armazenamento de memória. O projeto Kandel é radical e quer convencer todos os psicanalistas de sua boa fundamentação. É preciso, segundo ele, modificar tudo nas formas existentes da psicanálise : a formação dos psicanalistas, sua prática e sua forma de organização institucional. A formação deve ser assumida pela universidade, a prática deve ser aberta às avaliações quantitativas, a pesquisa deve inserir-se nas formas admitidas de pesquisa científica.

Os trabalhos neurológicos de Kandel pautam-se no isolamento do módulo do que ele chama de memória procedural. Os procedimentos repetitivos desta memória não recorrem nem à consciência, nem à linguagem que supõe um sujeito. Esse módulo utiliza diversos sistemas : o córtex sensório-motor, a amídala, o neostriatum. Essa memória dos comportamentos que se produzem sem recurso à consciência é, para ele, a realização dos processos freudianos inconscientes. Ele forja então o termo « inconsciente procedural ».

O essencial de uma psicanálise se passa, para ele, no nível do processo de repetição e de mudanças de comportamento do paciente, que modifica e aumenta seus modos de atuar do tipo procedural. O essencial ocorre fora da interpretação e da dimensão do sentido. Os poucos momentos em que o inconsciente procedural pode ser acessível ao consciente, ou ao sentido – os dois termos são para ele intercambiáveis – são pouco importantes . (2)

O modelo de inscrição da experiência proposto por Kandel reconhece suas fontes em Pavlov, mas ele o generaliza pela noção de associação contingente proposta por Léon Kamin em 1969. Do mesmo modo, o sinal de angústia freudiano diante de um trauma lhe parece perfeitamente explicado por Pavlov e o papel da amídala na regulação da angústia permite dar conta do tratamento da angústia pós-traumática. Tudo o que se refere à perda do objeto tem sua tradução no funcionamento de um sistema mecânico fora do sentido.

Esta tradução dos processos subjetivos em termos de rede neuronal como tratamento da memória é inaceitável. Como dizem Bennett e Hecker « é tentador pensar que as diversas formas nas quais se manifesta a recordação são todas devidas ao fato de que aquilo que é lembrado está registrado e armazenado no cérebro. Mas isto não tem sentido. O que se lembra, quando se lembra de uma ou outra coisa, não é de nada depositado em traços no cérebro, mas sim algo que primeiramente aprendemos ou experimentamos. O que os neurocietíficos devem descobrir são as condições neuronais da lembrança e os concomitantes neurológicos da lembrança... a expressão de uma recordação deve ser distinguida das configurações neuronais, quaisquer sejam, que condicionam a lembrança daquilo que uma pessoa se lembra. Mas essas configurações não são a memória : tampouco são representações, descrições ou expressões do que é lembrado » . (3)

Na fase clássica de seu ensino, Lacan tratou o inconsciente freudiano como memória. Ele imediatamente deduziu os circuitos de impossibilidades que essa memória engendrava. Ele também fez do Inconsciente um circuito não de conhecimento, mas de engano. Enfim, em seu último ensino, o Inconsciente é definido como uma forma de saber que age sobre o corpo do ser falante, o parlêtre, através de uma ausência.

« Eu digo, eu, que o saber afeta o corpo do ser que não se faz ser senão de palavras, este de repartir seu gozo, de assim lhe recortar até produzir as quedas de que eu faço o (a). » (4)

Não é a partir de representações dos acontecimentos

Eric Laurent
19 de julho de 2005

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(1) Kandel R, Biology and the future of Psychoanalysis : a new intellectual frame work for psychiatry revisited, in American Journal of Psychiatry, abril 1999, no 156, p.506
(2) op.cit, p. 509
(3) Bennett M.R, Hacker P.M.S ; Philosophical foundations of neuroscience ; Blackwell Publishing, 2003, p.170.
(4) LACAN J., Autres écrits, Ed du Seuil, 2001, p 550.
(5) Id, p 551.
(6) Id, p 571.
(7) Revista Latinoamericana de Psicopatologia fundamental, Entrevista com o Prof. Dr. Claudio Laks Eizirik, ano VII, n.3, set/2004, p 164. Agradeço a Jorge Forbes por ter me indicado esta referência.
(8) Philippe La Sagna : Les impasses à venir des TCC, texto apresentado na reunião dos Conselhos das Escolas Européias sob a égide da AMP-Europe, em 22 de junho de 2005.
(9) Le ministère de la santé veut confier à l’Université la formation des futurs psychothérapeutes, artigo publicado no jornal Le Monde domingo, 10 – segunda-feira, 11 de julho de 2005, redigido por Cécile Prieur, pp 8.
(10) Id.
(11) Milner J-C, La Politique des choses, Navarin Editeur, 2005.